A encomenda do bicho medonho

(Emanoella Callou)

André da Costa Pinto, 21 anos, ficou sabendo do Projeto Revelando os Brasis, uma iniciativa da Secretaria do Áudio Visual do ministério da Cultura, que visa promover a inclusão e formação áudio visual em municípios brasileiros com até 20 mil habitantes, através da professora da UEPB, Agueda Cabral, na véspera do encerramento das inscrições. Escreveu o roteiro em uma madrugada, enviou e foi selecionado.

André viajou para o Rio de Janeiro com os outros 39 selecionados, onde participou de cursos de produção, roteiro e direção nos estúdios da TV Futura.

Seu filme foi lançado no Circuito Nacional no Rio, concorreu em quatro categorias na Mostra Competitiva de Vídeos Digitais no 11° Cine PE, em Recife, onde foi bem recebido pela platéia de três mil pessoas.

Nesse momento, o jovem cineasta está em João Pessoa, com seu filme concorrendo ao prêmio de melhor filme da Paraíba, no festival Saelpa Cineport.A premiação será no sábado 12. 

Como você conheceu o seu David?

Conheço seu David barbeiro desde criança, sou de Barra de São Miguel, mesma cidade dele, ele era vizinho da minha avó. Seu Davi foi barbeiro de metade da cidade, e eu lembro de muitas histórias, casos muito engraçados que lembro da minha infância, quando eu e meus colegas íamos pra barbearia dele cortar o cabelo, eu lembro de chegar na barbearia dele e ele estar lá talhando uma das peças, e eu perguntava: seu David, o que é isso que você está fazendo? E ele dizia que não sabia o que era… que ele sonhava com um bicho e o bicho o ensinava a fazer a peça no sonho, então no outro dia ele tinha que começar a fazer a peça para pagar a promessa para o bicho. 

E o bicho ia receber as peças?

Não, sempre que o bicho aparecia era para fazer uma nova encomenda. Ele falou pra mim que a primeira vez que sonhou com o bicho foi aos sete anos de idade, e ele fez uma peça que admirou toda a cidade, então passou um visitante pela cidade que era carpinteiro, e pediu ao pai dele a peça e o pai o deixou levar, ele disse que o bicho ficou a vida inteira sem aparecer pra ele depois que o homem levou a peça. Só voltou a aparecer aos 46 anos, encomendando umas correntes de madeira, dizendo que o bicho o aprisionou no sonho e mandou fazer as correntes.

 Ele tem mais de 90 peças hoje e conta a historia de cada peça em poesia, ele, analfabeto, não sabe ler nem escrever, e contava com 95 anos, lembrava de cada uma. Infelizmente há duas semanas ele faleceu.

 Ele dizia mais ou menos assim:

“Uma noite eu tive um sonho, que não foi sonho bonito, quando acordei foi aflito, além de aflito tristonho, sonhei que o bicho medonho havia me acorrentado, depois de ter me algemado, me disse o bicho valente: faça de um pau três correntes mas deixe tudo encangado.”

E essa foi a primeira encomenda do bicho que voltou a aparecer quando seu David tinha 46 anos, que foram as correntes feitas de madeira. Chegaram a oferecer quantias exorbitantes para o seu Davi pelas peças, mas ele não vendia, pois dizia ter medo do que o bicho podia fazer com ele. Ele dava uma peça, mas não vendia.

De onde veio a idéia de fazer esse filme?

Desde criança me interessei por arte, então quando entrei no curso de comunicação a primeira idéia foi fazer um filme para divulgar o trabalho de seu David pro mundo, pois é um trabalho que não pode ficar esquecido. 

Quando começou o seu interesse pelo cinema?

Eu acho que desde a infância, sempre gostei de cinema, de assistir cinema. Desde os filmes da Walt Disney, ao Cinema Paradiso e ao próprio Cinema brasileiro, que eu sou apaixonado, especialmente por curtas metragens.

Eu digo que hoje no País é onde a gente tem a maior inventividade e criatividade, é no curta metragem. É muito pouco tempo pra fazer e se você olhar bem, a gente não tem condição nenhuma de fazer, mas o curta metragem é uma coisa acessível. 

Você já fez outros filmes antes?

Produzi um curta antes, a título de experiência, com a turma da faculdade, foi o curta Da Rapadura ao Berço da Cultura, que na verdade é um institucional da cidade de Areia.

Como você tomou conhecimento do Projeto Revelando os Brasis?

Através de Agueda Cabral que chegou pra mim faltando um dia pra acabar as inscrições e disse, olha está tendo esse concurso, você quer se inscrever? E eu já com tudo na cabeça, então numa madrugada escrevi o roteiro do filme e no dia seguinte à tarde enviei e acabei sendo selecionado…

Como foi o curso que você participou no Rio de Janeiro? 

O curso foi maravilhoso, nos tivemos 90 h/ aulas de oficinas de produção, roteiro e direção, e com pessoas famosas, o curso aconteceu nos estúdios da TV futura no Rio de janeiro, onde trabalhamos com Bebeto Abrantes, que foi roteirista do programa Brasil Total, Recife Servilha, que conta a historia de João Cabral de Mello Neto, Meninas, que é dele com Sandra Vernec. Tivemos aulas de produção com Beth Formagini, que foi produtora de Pixote, de Quem matou Pixote, de Chato o rei do Brasil-o documentário e várias series de tv. Aulas de edição, que é uma das grandes editoras da TV  globo, do programa Fama e do Big Brother Brasil, aulas de direitos autorais e de festivais, de recepção, com Tetê Matos que é a presidente do instituto brasileiro de estudos audiovisuais.

Enfim, maravilhoso, a equipe e a forma como foi passado, foram 40 selecionados, divididos e quatro turmas de dez, e ministrados os cursos voltei para a minha cidade com os recursos do ministério da cultura, produzir o filme, e foi lançado no circuito nacional, no Rio.

Qual o custo da produção?

Em torno de 12 mil reais.

Qual foi a maior dificuldade na produção? 

Quando a equipe de gravação chegou à cidade, seu David estava num pré-coma, ele não falava mais, e eu me perguntava como eu ia fazer o filme? A produção estava lá, eu ia ter que mudar todo o roteiro que havia construído. Então comecei a gravar peça por peça e ia ilustrar, com o off dos filhos dele e com a imagem dele falando, e quando a gente ligou a câmera o velho levantou e fez o filme. Nesse momento minha preocupação era gravar o máximo que pudesse, fugir do roteiro, pois não sabíamos o que poderia acontecer com ele dali p frente.

Então comecei a gravar e acabei com 25 horas de filme para tirar 15 minutos. E de um material muito bom, então o que foi crucial p mim foi o momento de edição, pois eu tinha muita coisa boa, mas só podia usar 15 minutos daquilo que eu tinha.

Como o seu filme foi recebido pelo público no Cine PE?

Já foi maravilhoso ter sido indicado para o Cine PE, ainda mais em quatro categorias, melhor vídeo digital, melhor direção, melhor roteiro e montagem. E ver uma platéia de três mil pessoas aplaudindo teu filme… Foi muito bom. 

E a expectativa para o CINEPORT?

Já é um premio viajar, divulgar o trabalho, fazer contatos, estou tranqüilo, vou mostrar o trabalho e se possível levar as peças dele para apresentar. 

Você tem planos para os próximos filmes?

Estou com a idéia de três curtas, já começamos a produzir dois, um está na fase de pesquisas e outro já está sendo gravado, e outro estou no roteiro… E tem um quarto roteiro que produzi de animação que estou fazendo contatos e se tudo der certo vamos colocar em prática. 

Como você observa a produção audiovisual na Paraíba?

Temos muita coisa legal, mesmo com pouco incentivo, tem Taciano Valério com filmes premiados, Marcus Villar, tem Torquato Joel, tem Ana Bárbara que acabou de ser premiada no cine PE, com Cabaceiras, Vladimir Carvalho, que já está conhecido nacionalmente, tem muita coisa boa, a gente não tem recurso pra fazer um filme de qualidade, um filme bom, principalmente quando passa para 35 mm, que é uma produção totalmente cara, mas hoje ainda bem que temos meios alternativos de fazer cinema, cinema é criatividade, se não tem uma forma, você busca outra, busca um ângulo melhor, uma câmera digital, de celular e faz, usando um meio alternativo de produção que possa usar criatividade e passar sua mensagem para as pessoas de forma que elas gostem daquilo que está passando. Porque se a gente ficar sonhando com Hollywood ou com Globo filmes, não vai chegar nunca, temos que usar o que temos.

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